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Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

  Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento - Por um setor resiliente às mudanças climáticas" , publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesqu...

Eventos Extremos, o show

  Enquanto a cidade de São Paulo passava por mais um dia de caos por conta das chuvas na última terça-feira (18/2), uma turma muito animada se reunia na Casa das Caldeiras no final de mais um dia de trabalho de avaliação e discussão justamente sobre as mudanças climáticas. Esse pessoal faz parte do Observatório do Clima, uma rede de organizações de todo o Brasil que trabalha para reduzir as emissões de carbono, minimizar seus efeitos deletérios, divulgar a enrascada em que nos metemos ao não levar a ciência a sério e tentar mudar o rumo dos acontecimentos enquanto é tempo. Quando cheguei lá, no final da tarde, para encontrar alguns desses meus amigos-heróis, ainda não sabíamos que mais uma pessoa (desta vez uma motorista de aplicativo) tinha perdido a vida em uma enchente, nem de todos os estragos na Zona Norte da capital paulista. Aliás, na Zona Oeste, a chuva nem tinha dados as caras ainda. Com todos os motivos para entrar em desespero, essa turma, como eu disse, é muito animada,...

Pra quem o presidente quer ser popular?

  Outro dia escutei a conversa de duas senhoras na piscina. Diziam que tinha sido bom “ele” ganhar a eleição, pois agora sua popularidade já estava caindo e nunca mais iria se eleger. “Ele”, logo descobri, era o presidente Lula. Segundo as duas mulheres, os maiores absurdos cometidos por ele eram não ter se pronunciado sobre a Nicaragua e não se manifestar contra o aborto. Depois dessa aula involuntária de política, me afastei e não sei o restante do papo. Acho que não preciso ser genial, porém, para concluir que essas senhoras nunca votaram e nunca vão votar “nele”. Mas, apesar de não ter dito nada sobre a Nicaragua – não faço a menor ideia do que o presidente deveria ter falado sobre o assunto – nem sobre o aborto, às vezes tenho a impressão de que “ele” governa sempre buscando agradar a essas senhoras, como se fosse um amor inatingível. Ao contrário do ex-presidente que certamente elas votaram e que em nenhum minuto de sua gestão deixou seus apoiadores na mão ou não cumpriu (inf...

Há uma conspiração contra todos nós

 Quem estiver interessado em saber por que Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e companhia estão todos faceiros lambendo as botas de Donald Trump assista ao documentário Conspiração Consumista, de Nic Stacey, na Netflix. O título original em inglês, ainda traz um complemento mais explicativo: Buy Now! (compre agora), retirado na versão em português. O filme mostra como as grandes corporações contam com a tecnologia/redes sociais para fazer com que as pessoas consumam cada vez mais, sem nem pensar no assunto. Para isso, usam estratégias sofisticadas para esconder informações e mentir descaradamente para que as pessoas ajam contra seus próprios interesses e ainda achem que as empresas se preocupam com seu bem-estar.  O diferencial deste documentário é trazer depoimentos de pessoas com altos cargos dentro dessas corporações, como Amazon e Adidas, que colaboraram para a criação destas estratégias e hoje lutam contra elas, por perceberem o quão insustentáveis são. Ver imagens de produtos d...

A memória é o grande tema do livro Ainda Estou Aqui

O sucesso do filme Ainda Estou Aqui, com seus múltiplos prêmios e indicações ao Oscar, comprovam a escolha certeira do diretor Walter Salles na abordagem escolhida na adaptação do livro. Quase tudo já foi dito sobre sua atualidade, qualidade e importância para o resgate da história brasileira. Ao ler o texto de Marcelo Rubens Paiva, no qual foi baseado, porém, fiquei encantada com a quantidade de camadas do livro. Outros filmes, igualmente bons, poderiam ser inspirados nele. Para alguém como eu, que convive há quase 20 anos com uma mãe perdendo lentamente a memória e a personalidade, sabendo como a demência rouba seu ente querido aos poucos, em uma marcha inexorável sem prazo para acabar, o relato de Marcelo emociona a cada detalhe de suas indagações, pesquisas e constatações sobre o Alzheimer. O resgate amoroso da história de uma mulher inteligente e forte, pelo filho que nada pode fazer para impedir que ela vá se tornando frágil e incapaz de gerenciar a própria vida é um retrato da s...

O paradoxo das motos em São Paulo

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu ...

Férias com Hercule Poirot

  Quando estou de férias, gosto de tirar alguns dias para não pensar. Então deixo Hercule Poirot pensar por mim. Levar Agatha Christie na bagagem é diversão certa se deixo de lado meu anacronismo em relação a questões como feminismo, racismo, colonialismo etc., essas coisas que pouca gente presta atenção, mas sou boba o suficiente para ficar reparando e fazendo malabarismos para não estragar o prazer de quase tudo o que leio. Não nas férias! Costumo me tornar uma pessoa normal nessa época. Neste ano, levei comigo Morte no Nilo, mas poderia ser qualquer um: Assassinato no Expresso Oriente, Cai o Pano, Morte na Mesopotâmia, o Natal de Poirot. Quando quero uma protagonista mulher, opto por um dos títulos onde a heroína é a detetive amadora Miss Marple, como Um Corpo na Biblioteca ou Crime no Hotel Bertram. Não tenho a mínima ideia de onde a escritora britânica tirava tanta imaginação e como conseguiu escrever tantos livros.  O importante, se quiser embarcar na aventura, é saber, ...

Cadê a cura pra ultramacho?

  Disse o novo (de novo) presidente do Estados Unidos que, naquele país, a partir de agora, só existem dois sexos. Na minha humilde opinião, ele esqueceu de um, que não é exclusividade dos EUA, é mundialmente disseminado, mas infelizmente pouco combatido: o ultramacho. O fato de ser tão persistente na sociedade, mesmo nas mais evoluídas, indica que talvez tenha algum componente genético, embora o gatilho cultural (todas as religiões monoteístas costumam valorizá-lo bastante) seja fundamental.  Prevalecem nos grupos de direita, são quase a totalidade nos de extrema-direita, onde desde criancinha são doutrinados ou recebem algum remedinho em suas mamadeirinhas de piroquxnhas, não sei. Mas aparecem também entre ditos esquerdistas, onde são conhecidos como esquerdomachos. Estes, ao contrário dos demais, não se reconhecem na comunidade, ficam no armário a maior parte do tempo, mas não enganam ninguém.  A maior característica dos humanos desta tipificação sexual, além da prefer...

Que 2025 seja fresco!

 Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer.  Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plás...

Novo centro cultural no Complexo Matarazzo é passeio completo

  Aos que, como eu, gostam de se aventurar por São Paulo, o centro cultural Casa Bradesco, inaugurado no mês passado no Complexo Matarazzo, na rua Itapeva (perto da avenida Paulista), é mais uma opção imperdível. Faça como eu e minhas amigas: erre a entrada e passe por dentro do hotel Rosewood. Desde que era adolescente e me embasbacava ao descer as escadas rolantes do Maksoud Plaza (infelizmente agora fechado), não entrava em hotel tão bonito em São Paulo. Esqueça a ideia de hospedar-se lá, pois provavelmente não é para seu bico (nós perguntamos quanto era a diária!). Voltando ao centro cultural, foi aberto com uma exposição do artista plástico indo-britânico Anish Kapoor, um dos grandes nomes da arte contemporânea. Suas obras são imensas e impactantes, com muito vermelho vivo, daquelas que nos permitem de alguma maneira interagir com elas, ao nos vermos refletidas em seus relevos. As que mais gostamos, porém, são pintadas com uma tinta especial que absorve quase toda a luz e nã...

80% da água doce da Terra está na Antártica

  De todos os locais que gostaria de conhecer, mas duvido que consiga, a Antártica está no topo da lista. É muito longe, é muito caro, é muito frio. Mas é fascinante. Estou aqui embevecida com o livro Expedições Antárticas, do fotógrafo e biólogo Cesar Rodrigo dos Santos, que teve o privilégio de estar 15 vezes por lá, entre 2002 e 2017, e registrar imagens de tirar o fôlego. O livro ainda tem com o plus dos textos serem da minha amiga Silvia Marcuzzo, que conta as aventuras de Cesar, e nos traz detalhes da infraestrutura e o trabalho desenvolvido pelo Brasil no continente gelado, da geografia e da biodiversidade locais, assim como os desafios do último lugar remoto do planeta. É uma região sobre a qual tudo o que sabemos, normalmente, se resume às suas paisagens de horizontes brancos infinitos e pinguins amontoados. Mas é um território a ser muito estudado, até porque as mudanças climáticas podem modificar rapidamente o que conhecemos até agora: “O continente antártico é reple...

Será que as árvores são as vilãs?

  Se você mora na cidade de São Paulo, tenho um pedido pra te fazer. Quando estiver na calçada, olha pra cima. Veja quantos postes você enxerga e a quantidade de fios amarrados neles. Dá uma olhada e tente contar as camadas e, mesmo considerando o número de empresas de telefonia e internet disponíveis no seu bairro (já que energia elétrica é monopólio), imagina se faz sentido a quantidade de fios que passa por ali. E, mais do que isso, perceba o volume de fios amarrados de qualquer jeito, enrolados, caídos pelos postes ou meio pendentes entre um poste e outro e dos quais é preciso se desviar ao andar pela rua. Se você não achar que está diante de um serviço muito malfeito, realizado com um descaso inimaginável, olha de novo, pois você não prestou atenção. Li um artigo muito comprido e bastante complexo do @ayubio, um especialista em tecnologia, e o assunto não é simples, mas há vários fatores responsáveis por tudo isso. Segue um resuminho do que entendi: Os cabos elétricos cost...

Literatura feminina é só pra mulher?

  Longe de mim desmerecer os autores, são todos ótimos, mas fiquei decepcionada ao ler hoje que apenas três mulheres estão entre os dez livros mais vendidos na Flip neste ano. Sem estar na programação do evento, a sul-coreana Han Kang entrou na lista, possivelmente, apenas porque foi a vencedora do Nobel de Literatura de 2024. Há mais de uma lista, com nomes diferentes, mas a proporção se mantém. A impressão que tenho é que o tempo passa e as mulheres continuam sendo menos lidas. Dizem que homens normalmente não leem mulheres, o que desequilibra a corrida. Tenho lido bastante literatura, obras de autores de todos os gêneros, e não consigo achar que um é melhor do que o outro. Nos ambientes literários, como em lançamentos, clubes de leitura ou na pós-graduação em escrita criativa que frequento, as mulheres são sempre maioria, mas isso não se reflete no quanto são lidas. Quando aparecem comentários sobre isso, costumo ouvir que há uma literatura feminina, com temas que só interessa...

A Fera na Selva

  John Marcher achava que algo grandioso, mas muito grandioso mesmo, aconteceria com ele a qualquer momento. Uma coisa tão impactante como o aparecimento de uma fera na frente de uma pessoa andando pela selva. Tinha tanta convicção disso que atravessou a vida aguardando esse acontecimento. A força dessa espera deixou tudo o mais tão desimportante, que John Marcher praticamente passou pelo mundo sem nenhuma experiência significativa. Sobretudo, não amou – ou não soube identificar o amor. Dividiu esse segredo (sobre a convicção da chegada do acontecimento) ainda muito jovem com May Bartram, a amiga que o acompanhou durante toda a jornada. John Marcher era um dândi, bem-educado, boa gente, rico; o protagonista da novela A Fera na Selva, do estadunidense naturalizado britânico Henry James. Não precisou lutar pela sobrevivência, mas viajou, teve amigos, mas nada construiu. Vivia narcisisticamente se considerando tão importante que o destino só poderia ter grandes planos para ele. Foi ...

Zaratustra falou, mas não entendi

Li ‘Assim Falou Zaratustra’ inteiro e entendi quase nada, embora tenha adorado a poesia de Nietzsche. Certos trechos são muito lindos, mas incompreensíveis para uma reles mortal como eu. Em seu mundo, mulheres praticamente não existem, a não ser em menções misóginas, do tipo “coisas de mulherzinhas” para se referir a algo que considera fraco, dissimulado ou pouco inteligente. “Que o homem tema a mulher quando ela ama: pois então ela faz qualquer sacrifício, e todas as outras coisas são-lhe sem valor. Que o homem tema a mulher quando ela odeia: pois o homem é apenas mau no fundo da alma, a mulher, porém, é ruim. A quem odeia mais a mulher? – Assim falou o ferro ao ímã: ‘Odeio-te mais que tudo porque atrais, sem seres forte o suficiente para me reter’.” O melô da misoginia. Ele também despreza os homens em geral e procura por um super-homem, ou homem mais elevado, cuja definição é impossível decifrar. Dá a impressão que nem o próprio Zaratustra sabe, pois está sempre irritado com aque...

Kindle é bom só para variar

Em uma conversa com minhas amigas, quando cada uma foi instada a dizer qual era sua maior qualidade, pensei em mim como uma pessoa fiel: à família, ao meu marido, aos meus amigos, aos meus princípios. Mas ultimamente andava pulando a cerca e me sentindo bem feliz: ganhei um Kindle faz um tempinho e me recusava a usar por fidelidade aos livros de papel, seu toque, peso, cheiro. Mas a satisfação imediata da vontade de ler um título e bastar dois clicks para tê-lo em mãos e, porque não dizer, também a economia, me fizeram ceder à tentação. Achei sem-gracinha, mais chato de voltar as páginas, não tem orelha, não dá pra usar marcador – e isso é mesmo muito chato -, nem escrever nas margens. Pensava, porém, na quantidade absurda de livros que estou tentando catalogar para dar um jeito em nossa biblioteca e no espaço que não se multiplica como eu gostaria, e nas árvores que serão economizadas, e em como eu quero ser moderna. Já estava me acostumando. Até que ganhei de amigos queridos um vale ...

Livro mostra como o Brasil já controlou o desmatamento da Amazônia – e que pode repetir a dose

Sob o céu poluído e esfumaçado de São Paulo, o jornalista Claudio Ângelo lançou ontem (10/9), na livraria Megafauna, o livro O Silêncio da Motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia (Companhia das Letras), realizado com a colaboração do engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da iniciativa MapBiomas e um dos personagens dessa história da vida real – tão real que afeta a vida de todos nós. Não fosse esse “presente de grego” da fumaça das queimadas vindas dos nossos “quintais” paulistas, mas também da Amazônia, até poderíamos achar que o livro traz notícias reconfortantes. Em O Silêncio da Motosserra, Ângelo e Azevedo contam como o desmatamento da Amazônia começou a ser uma questão para o Brasil no final dos anos 1980, quando começou a ser monitorado. E, principalmente, como foi domado entre 2005, quando o sistema de monitoramento por satélite em tempo real foi instaurado, até 2012 (governos Lula e início de Dilma), período em que o desmatamento foi reduzido cont...

Passeio com as amigas

Flanar por São Paulo com as amigas é um dos meus programas prediletos e a cidade sempre apresenta ótimas oportunidades para vermos algo novo, que esteja de passagem ou passou desapercebido. Desta vez, aproveitamos a oportunidade do Aberto3, uma plataforma de exposições itinerantes, realizadas em espaços inusitados, para conhecer duas casas incríveis: a casa-ateliê de Tomie Ohtake e a da arquiteta Chu Ming, que criou o orelhão, marca das cidades brasileiras durante décadas. São dois projetos de casas naquele estilo de concreto conhecido como Brutalismo Paulista, que assustam em um primeiro momento, mas encantam pela luminosidade e beleza, e parecem feitos para destacar obras de arte, como as que faziam parte da exposição. No entanto, em meio a obras da própria Tomie, da Adrian Varejão, do Tunga e muitos outros artistas contemporâneos, eram as próprias casas, com suas excentricidades, o que mais chamava a atenção. Na de Tomie, projetada por seu filho Rui Ohtake, é impossível não se ...

Ursula K. Le Guin pensa mundos onde o anarquismo e o gênero neutro deram certo

  As mulheres ainda são tão minoritárias na ficção científica, que apenas este fato seria suficiente para se ler Ursula K. Le Guin. Minha razão para recomendá-la, porém, é outra. Li dois livros da autora, Os Despossuídos e A Mão Esquerda da Escuridão, e me chamou a atenção nenhum deles trazer um futuro terrível ou ameaçador para a humanidade, espalhada em diferentes planetas universo afora. Em uma época na qual olho pela janela e o céu esfumaçado me faz sentir estar em Blade Runner (Ridley Scott, 1982) e ver o noticiário me transporta para o pavor de Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) ou O Exterminador do Futuro (James Cameron, 1991), é bom ler, para variar, algo do gênero que não seja distopia dizendo pra mim “Hasta la vista, baby!”. Nesses dois livros de Le Guin, escritos há mais de 50 anos, os personagens vivem em condições climáticas extremas, mas são adaptados e mantêm uma relação de respeito pela natureza que, mesmo hostil, os permite sobreviver. Em Os Despo...

Livrai-nos do Mal

  Houve uma movimentação no grupo de WhatsApp do prédio da Neise na última quinta-feira para saber por que o apartamento dela estava interditado. Caso chegassem mais perto da porta, os vizinhos veriam que, no meio das fitas de isolamento de área, havia uma plaquinha indicando Hotel Towneley Arms. Se tivessem aberto a porta, teriam se deparado com uma cabeça de homem sobre a mesa, cercada por sete mulheres – ali representadas por bonecas – suspeitas do assassinato. A arma do crime, um machado ensanguentado, estava ao lado da parte do corpo exposta. Na parede da sala, um esquema daqueles de filmes policiais trazia Jamie Spellman no centro, com as informações sobre a vítima e as possíveis assassinas ao redor. Essa mistura de cena de crime com delegacia de polícia foi planejada pela Neise para nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura – CFL sobre o livro Livrai-nos do Mal, da inglesa Rose Wilding. Pela primeira vez em nosso grupo, à exceção de nossa anfitriã/inspetora de polícia, ...