Pular para o conteúdo principal

A memória é o grande tema do livro Ainda Estou Aqui


O sucesso do filme Ainda Estou Aqui, com seus múltiplos prêmios e indicações ao Oscar, comprovam a escolha certeira do diretor Walter Salles na abordagem escolhida na adaptação do livro. Quase tudo já foi dito sobre sua atualidade, qualidade e importância para o resgate da história brasileira. Ao ler o texto de Marcelo Rubens Paiva, no qual foi baseado, porém, fiquei encantada com a quantidade de camadas do livro. Outros filmes, igualmente bons, poderiam ser inspirados nele.

Para alguém como eu, que convive há quase 20 anos com uma mãe perdendo lentamente a memória e a personalidade, sabendo como a demência rouba seu ente querido aos poucos, em uma marcha inexorável sem prazo para acabar, o relato de Marcelo emociona a cada detalhe de suas indagações, pesquisas e constatações sobre o Alzheimer. O resgate amoroso da história de uma mulher inteligente e forte, pelo filho que nada pode fazer para impedir que ela vá se tornando frágil e incapaz de gerenciar a própria vida é um retrato da situação vivida por tanta gente hoje em dia. Um drama que, mesmo sem os vilões sádicos da ditadura militar, corrói famílias impotentes diante da situação.

A demência de minha mãe é consequência da retirada de um tumor cerebral há muitos anos, embora os sintomas sejam muito semelhantes ao Alzheimer. Mesmo que hoje ela reconheça cada vez menos pessoas e fale quase nada com sentido – na maior parte do tempo repete nomes de cores: verde, verde, verde, azul, azul, azul -, de repente, olha para televisão e faz uma observação coerente, “este homem é mal”, para um vilão de novela, ou “coitadinhos”, para vítimas de enchentes no telejornal. E sentimos a mesma angústia de Marcelo em relação à Eunice Paiva. Ambas as mães (e tantas outras) ali, em seus mundos particulares, ao qual ninguém tem acesso, a dizer “ainda estou aqui”. Está mesmo? Está onde? É possível resgatá-la?

Aos 90 anos, também meu pai começa a apresentar os sintomas de senilidade, a memória recente já é quase nula e não consegue gerenciar mais suas coisas. Nunca imaginei passar por um drama desses com pai e mãe ao mesmo tempo. A capacidade de Marcelo Rubens Paiva de trazer duas questões tão prementes relacionadas à importância da memória, a coletiva e a individual, para a sociedade contemporânea, talvez seja o maior mérito do livro. Vermos um mundo, há apenas 80 anos saído da mais cruel das guerras, voltar a se encaminhar para pensamentos e, possivelmente, regimes fascistas, é tão cruel quando vermos nossos velhos sobrevivendo sem entender o que estão fazendo aqui. 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

  Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento - Por um setor resiliente às mudanças climáticas" , publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesqu...

O incômodo Caderno Rosa de Lory Lamb

Participo de um grupo de leitura o qual chamamos Círculo Feminino de Leitura (CFL), que completa em julho próximo 10 anos. Somos 11 mulheres que se reúnem mensalmente (entre fevereiro e dezembro) para discutir um livro indicado normalmente pela anfitriã do mês, além de dividir nossas experiências, alegrias e tristezas. Nesse período, lemos e discutimos mais de 130 livros, dos mais diversos gêneros e nacionalidades. Para comemorar nossos 10 anos, achamos que nada melhor do que realizar um sonho antigo e nos reunir na Festa Literária de Paraty. Já reservamos uma pousada e apenas uma de nós, que atualmente mora nos EUA, ainda não conseguiu confirmar. Como parte de nossa preparação, resolvemos que até a viagem vamos ler livros relacionados à Flip. Acabamos de discutir O Caderno Rosa de Lori Lamby , da autora homenageada Hilda Hilst. É preciso que se diga que ninguém ficou indiferente à Lory Lamb. Umas adoraram, outras odiaram. Incumbida de puxar a discussão sobre o livro pornô ch...

A USP vai desaparecer...

O alerta veio do meu marido, André, outro dia quando olhava pela janela do quarto: “Você viu o novo prédio que estão construindo? A USP vai sumir da nossa visão...” Mesmo tendo precedentes, a notícia me entristeceu. É a última réstia de horizonte do alto do meu décimo quarto andar na Vila Madalena. Em uma cidade onde a especulação imobiliária expulsa moradores e incrementa o trânsito sem dó nem piedade, falar sobre direito à paisagem parece conto da carochinha. Já sei que a única coisa a fazer é me conformar. No apartamento que morei antes deste, na Água Fria (bairro da Zona Norte na parte alta de Santana), em cinco anos vi uma panorâmica de 180º - que ia da Zona Leste ao Pico do Jaraguá - desaparecer atrás de três edifícios. Primeiro sumiu o Anhembi e o Centro, junto com nossa privacidade, a partir dali sujeita à sacada do prédio em frente. Logo depois, foi a vez da Zona Leste e sua imensa planície sumirem do mapa. O pico da Jaraguá desapareceu duas semanas antes de nos mudarmos ...