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Quero teletransporte


Se houvesse teletransporte, poderíamos chegar a alguns locais rapidamente, mas este não é o meu ponto. A questão aqui é poder chegar ao local desejado sem ter que ver o que não deveria existir e, existindo, incomoda muito.
Complexo Cultura Julio Prestes, São Paulo.
Por exemplo, se houvesse teletransporte, eu poderia ir assistir a um concerto na Sala São Paulo sem ter que presenciar a escuridão e a sujeira que permeiam aquela parte da cidade, onde seres desvalidos vagueiam saqueando o lixo, fumando craque, vivendo (ou tentando sobreviver) embaixo de marquises (os sortudos) ou encostados em muros, enquanto outros (um pouco menos desprivilegiados) correm de um lado para o outro em estado de superatenção, torcendo para chegar ao destino sãos e salvos.
Caso isso fosse possível, talvez eu não percebesse, por contraste, que praticamente todos os que estão nessa situação que não deveria ser vista são negros, enquanto os do lado de dentro do teatro (tirando alguns gatos pingados) são brancos, incluindo todos os músicos que se apresentavam.
O teletransporte faria com que eu tirasse muito mais prazer de estar na fila do gargarejo ouvindo O Guarani e As Bachianas Brasileiras e só pensasse em como os brasileiros, dos compositores Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos ao maestro e toda a orquestra, são talentosos.
Sem o teletransporte, eu e meus pares da plateia nem cogitamos ir ao concerto de metrô, como muitos fazem orgulhosamente quando estão em Nova York ou Londres para esse tipo de programa, mas contamos com um vasto estacionamento e um serviço de táxi que se pede do lado de dentro do prédio, para não corrermos o risco de ficar mais tempo do que o mínimo necessário do lado de fora.
A falta do teletransporte é culpada por, ao invés de me concentrar em olhar como a Estação Julio Prestes era luxuosa e cheia de promessas de progresso, que propiciou abrigar um complexo cultural tão bonito, passar meu tempo pensando se as pessoas ao meu lado viram o mesmo que eu ou os vidros escuros dos automóveis as pouparam desse desgosto. Ou, ainda, ficar pensando quantos deles ainda se chocam com a tristeza da desigualdade suprema da nossa sociedade e quais estão no grupo que só pensa em como manter seus privilégios, se possível contando com mais repressão e menos direitos básicos que joguem mais gente para o time de quase walking dead do lado de fora?
Claro que a região da Luz não é o único lugar na metrópole a nos jogar na cara que sociedade ruim temos produzido. Os sinais estão tão escancarados que dificilmente o teletransporte minimizaria a sensação de autodesprezo e impotência com a qual tento seguir adiante.

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