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O estado islâmico e o Congresso Nacional

  Tenho baixa resistência à crueldade. Quando se trata de mulheres e crianças, é quase fobia. Por isso essa discussão sobre o hediondo projeto de supercriminalização do abordo me deixou paralisada, assim como foi difícil engrenar na leitura de A Tatuagem de Pássaro , romance da iraquiana Dunya Mikhail. O livro é uma espécie de O Conto da Aia (de Margaret Atwood), mas real e atual. Começa com a invasão de partes do Iraque e da Síria pelo Estado Islâmico, em 2014, e a escravização das mulheres não muçulmanas - não que a vida destas últimas tenha ficado boa. Acompanhamos a história a partir de Helin, da minoria de origem curda iazidi, cuja religião traz elementos do islamismo, do cristianismo e do zoroastrismo, sequestrada em Mossul pelo Daich (nome pelo qual o estado islâmico ficou conhecido no mundo árabe), mas chamado de “quadrilha” no livro. Helin e as demais mulheres, aí incluídas as meninas a partir de 9 anos, se tornaram mercadoria vendida pela internet, que pode ser trocada...

O ponto máximo da evolução

  Só sei dizer sobre nós mesmos, não tenho informação sobre outros povos, mas o brasileiro é muito autorreferente. Adoramos saber a opinião de estrangeiros, principalmente os ilustres, sobre nós. Ficamos indignados quando vemos alguém trocar nossa capital ou confundir nossos ritmos musicais. Quer ver meu marido furioso, é um artista ou político de outro país falar mal do Brasil em alguma entrevista. Parece que a pessoa falou sobre e para ele.  Da minha parte, não tenho inclinações patrióticas. Nos vejo como muito ignorantes sobre outros povos e países e, assim, por que esperar que os demais saibam sobre nós? Mas é curioso nos ver refletidos na visão alheia, mesmo na ficção. Lendo o romance Plataforma , do francês Michel Houellebecq, me deparei com uma descrição da minha cidade, São Paulo, bastante peculiar. O livro é uma grande crítica ao capitalismo global e sobra pra todo mundo. Ao longo o texto, Michel Renault, um funcionário público francês de meia-idade, cínico e frus...

Tremores e temores

Tremores e temores Ao fazer um discurso em homenagem a seu pai na universidade onde ele lecionou, dois anos após sua morte, a escritora estadunidense Siri Hustvedt teve uma tremedeira por todo o corpo, do pescoço para baixo. Ficou desconsertada e preocupada. O que seria aquilo? Acostumada a dar palestras e entrevistas, não encontrava motivos para o acontecido. Vítima de fortes enxaquecas desde a juventude, após sofrer mais um episódio de tremores ao falar em público, passou a pesquisar as causas. O resultado é o livro A Mulher Trêmula ou Uma História dos Meus Nervos , no qual retrata sua jornada em busca do que acontecia com seu corpo e se embrenha no mundo da psicanálise e da neurologia em busca de respostas. Hustvedt  - agora viúva do recém-falecido escritor Paul Auster - não era uma neófita sobre doenças psíquicas e mentais. Há anos participava de grupos de estudo sobre o tema e dava aulas de escrita criativa para pacientes de um hospital psiquiátrico. Misto de biografia e...

CFL: Em Agosto nos Vemos

  Pela primeira vez em uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) nos ativemos mais ao Prefácio e ao posfácio, intitulado Nota da Edição Original , do que à discussão do enredo do livro. Os textos estão inseridos na obra Em Agosto nos Vemos , do Gabriel García Márquez, publicado postumamente por iniciativa dos filhos do escritor. Nossa conclusão foi unânime: se você não quiser que algo seu seja publicado (ou visto ou qualquer outra coisa) após a sua morte, destrua antes, pois caso o que você deixou valha algum dinheiro será usado à sua revelia. Foi exatamente isso que fizeram filhos e editores de Gabo ao publicar um livro claramente menor e inacabado do grande escritor. O ganhador do Nobel, ícone da literatura latino-americana e autor da obra-prima Cem Anos de Solidão não precisava ter esse livro em sua biografia. Por mais gostosinho de ler que ele seja. Caso Nos Vemos em Agosto fosse a obra de estreia de qualquer aspirante a escritor estaria super ok, pois tem um tema...

Quando a turma da kombi se encontra

  Éramos (bem) jovens. Tínhamos muitos sonhos, esperança e determinação – e alegria de sobra. Queríamos salvar o mundo de nós mesmos e para nós, mas também para todo o resto de vida que há no planeta. A Mata Atlântica foi o primeiro alvo, estava mais perto da sanha destruidora, era preciso correr contra o tempo. No início, costumávamos dizer que cabíamos em uma kombi. Depois, várias redes foram criadas, novos parceiros com os mesmos objetivos foram descobertos, e a luta se expandiu em todas as direções e biomas do Brasil. Sem essa Kombi, no entanto, possivelmente muito pouco da Mata Atlântica restante estaria de pé. Não haveria uma Lei da Mata Atlântica (a única a proteger um bioma específico no país) nem o Dia da Mata Atlântica, comemorado em 27 de maio. Nessa data, anualmente, a turma da kombi tem um encontro marcado. Nem todos conseguem vir, pois estão espalhados pelo Brasil: produzindo mudas e plantando árvores, fazendo ciência e lutando por políticas públicas para minimiza...

A air fryer e a ilusão capitalista

Fui apresentada à air fryer durante a pandemia. Não pessoalmente, pois me encontrava em isolamento em uma chácara, digamos, isolada, mas através das reuniões de Zoom. Era só termos uma pausa hidráulica ou nos aproximarmos da hora do almoço e alguém soltava: “chegou minha air fryer!” Dali pra frente, mesmo que estivéssemos discutindo o destino da Amazônia ou do Cerrado, de florestas, a índios, a gado, a rios, enfim, qualquer coisa mundana trivial, tudo era esquecido. As maravilhas que eram possíveis de fazer rapidamente, sem óleo, sem trabalho, apenas jogando o que quer que fosse naquela que entendi ser uma panela elétrica, tornavam-se o centro das atenções. Os rostos apáticos nas telas ganhavam vivacidade e a troca de dicas e receitas e declarações de amor ao mais importante utensílio doméstico criado desde a invenção do fogão à lenha tomavam toda a atenção. Frango à passarinho ou batata frita, legumes e arroz em minutos, forrar com papel alumínio para facilitar a limpeza, pão de que...

Ativismo como uma postura de vida

  Voltamos à entrevista com Dorinha, a arquiteta pernambucana Maria das Dores Melo. Durante aproximadamente 20 anos, ela esteve à frente de organizações não-governamentais que ajudaram a colocar no mapa – literalmente – a Mata Atlântica do Nordeste e evitar que seus remanescentes interioranos desaparecessem de vez. Tanto na Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE) como a Associação para a Mata Atlântica do Nordeste (Amane), organização criada por uma aliança de oito importantes ONGs brasileiras que atuam no bioma, ela se dedicou apaixonadamente para conseguir recursos e implementar projetos na região, até comprometer sua saúde. Para Dorinha, ativismo pode ser uma postura de viver, de se expressar, “essencial mesmo que não seja tão confortável”. Veja a entrevista completa no Conexão Planeta: https://conexaoplaneta.com.br/blog/dorinha-melo-ativismo-e-uma-postura-de-vida-essencial-mesmo-que-nao-seja-confortavel/ Foto: Arquivo pessoal.