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CFL: Em Agosto nos Vemos

 


Pela primeira vez em uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) nos ativemos mais ao Prefácio e ao posfácio, intitulado Nota da Edição Original, do que à discussão do enredo do livro. Os textos estão inseridos na obra Em Agosto nos Vemos, do Gabriel García Márquez, publicado postumamente por iniciativa dos filhos do escritor. Nossa conclusão foi unânime: se você não quiser que algo seu seja publicado (ou visto ou qualquer outra coisa) após a sua morte, destrua antes, pois caso o que você deixou valha algum dinheiro será usado à sua revelia.

Foi exatamente isso que fizeram filhos e editores de Gabo ao publicar um livro claramente menor e inacabado do grande escritor. O ganhador do Nobel, ícone da literatura latino-americana e autor da obra-prima Cem Anos de Solidão não precisava ter esse livro em sua biografia. Por mais gostosinho de ler que ele seja.

Caso Nos Vemos em Agosto fosse a obra de estreia de qualquer aspirante a escritor estaria super ok, pois tem um tema interessante e podemos abstrair as várias pequenas contradições e a superficialidade da história. Mas um gênio perfeccionista como García Márquez não deixaria nada passar. O Prefácio informa que o que apresenta é a junção de duas versões da novela na qual o escritor trabalhava, em meio a outras versões ainda, nenhuma considerada boa pelo autor. O argumento de que é um presente aos fãs de Gabo não convence. Seria melhor reler qualquer um de seus outros livros. Mas dindim é dindim, fazer o que.


Claro que nada disso nos impediu de viajar na barca com Ana Magdalena para aquela ilha no Caribe e acompanhá-la ao túmulo de sua mãe e às suas aventuras extraconjugais. Com nossos trajes caribenhos, um cardápio de milho como base (de doer de bom), incluindo pastéis, polenta com cordeiro e curau preparados pelo simpático chef-vizinho da Edna, apoiamos as escapadas de nossa protagonista, mesmo sem entender seu propósito ou ficar claro (uma das contradições do livro) se seu marido é um predador inveterado ou um companheiro fiel que deu uma vacilada apenas uma vez. Tanto faz.

Como a bruxa estava solta e imprevistos em série fizeram a maior parte das integrantes faltarem à reunião, em nosso encontro mensal do CFL – com apenas cinco de nós - ainda sentimos falta de saber mais sobre a mãe de Maria Magdalena e da relação das duas - ficou aquele gostinho de quero mais, de que havia mais a ser dito caso García Márquez o tivesse terminado.

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