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Histórias paralelas

 




Chego em São Paulo após um voo em que menos de 5% dos passageiros eram negros. Na tripulação, nenhum. Volto impactada pela visita ao National Museum of African American History and Culture, em Washington, aberto em 2016 e do qual não tinha ouvido falar até me deparar com o majestoso prédio bem pertinho da Casa Branca. A primeira coisa que me perguntei foi se este lugar existiria se não houvesse Barak Obama ou se dependesse de um governo como Trump. De todos os inúmeros museus da capital estadunidense, foi o que escolhi para conhecer e por lá passei umas boas três horas.

Como tudo naquela cidade, o prédio, já grandioso por fora, é ainda maior por dentro e tem muito mais gente do que se imagina. É uma sucessão de filas para tudo. Pessoas de todas as cores, mas principalmente a população negra daquele país. Uma ala inteira para a história da escravidão e a dor no peito de sempre ao constatar como as histórias do Brasil e dos Estados Unidos são parecidas na crueldade, e de ver, mais uma vez, que de onde vim essa indignidade fez muito mais vítimas e durou mais tempo.

A abolição divide os dois países. Nos Estados Unidos, a mesma Guerra Civil que acabou com a escravidão, criou as condições para perpetuar a segregação racial, na primeira e mais abusada das hipocrisias do “país da liberdade”, “centro do mundo livre” entre outras definições autoproclamadas. No Brasil, isso nunca existiu, embora pareça difícil achar que largar a maior parte da população do país à própria sorte de um dia para outro, trazendo europeus de balde com garantia de emprego e terras para substituí-los, seja muito melhor. Em comum, as duas péssimas decisões produziram sociedades desiguais e incentivou o racismo na população branca, sempre se sentindo ameaçada por possíveis perdas em seus privilégios.


As duas outras alas principais do museu da história afro-americana são dedicadas às lutas pelos direitos civis, sobretudo entre 1955 e 1968, e o que chamam da transformação do país a partir disso. Os sentimentos são contraditórios. Vão da emoção de ver a garra e a coragem de um povo em busca de seus direitos à raiva profunda da resistência que enfrentaram e de reconhecer, na postura dos que resistiam às reivindicações, ideias e comportamentos que vejo ainda hoje em círculos não tão distantes de mim. O taxista que nos trouxe do aeroporto para casa no domingo, por exemplo, só não terminou uma frase horrorosa sobre imigrantes haitianos porque meu marido o interrompeu (e intimidou) ao me perguntar se meus amigos haitianos, que trabalham no estacionamento em que deixo o carro quando vou visitar meus pais, falam bem o português.

 A transformação nos EUA desde os anos 1970 é inegável e muito superior ao que temos por aqui. Representando pouco mais de 12% da população, pessoas negras estão presentes em todos os espaços, sobretudo nas grandes cidades. São reconhecidas não apenas nos esportes, mas em todas as áreas, inclusive no centro do poder. Há um espaço especial no museu para afrodescendentes de sucesso, como Oprah Winfrey e a família e a presidência de Obama. Infelizmente, ainda não há nada sobre acontecimentos recentes, como o assassinato de George Floyd e o movimento Vidas Negras Importam, que mostram que a luta ainda está longe de acabar. Andando pelas ruas de Washington e Nova York, é possível constatar que os negros ainda são os mais pobres e que a população em situação de rua é praticamente só dessa cor.

Mesmo assim, uma verdadeira transformação está muito mais longe por aqui, onde é aceitável que mais de 50% da população não tenha acesso aos melhores empregos, endereços, restaurantes, equipamentos culturais, escolas e o que mais se pensar. Que viajar seja um privilégio branco. Que negros serem assassinados em massa em ruas e favelas e sigam acuados em todos os cantos seja normalizado.

Chego em São Paulo e a principal notícia nas redes sociais e na boca do povo é a injúria sofrida pelo Vini Júnior na Espanha. Brasileiros estão furiosos e solidários com o jogador de futebol e vários vociferam contra os espanhóis, como se todos naquele país fossem racistas e, por aqui, vivêssemos na maior democracia racial do planeta, para orgulho de Gilberto Freire e suas casas grandes e senzalas. Afinal, enricar e ter muitos fãs a partir do campo de futebol foi permitido aos descendentes das senzalas, embora os melhores lugares dos estádios (ou na direção dos times de futebol) não sejam reservados a eles. Claro que considero um horror o que acontece nos campos de futebol da Europa e, lembremos, também por aqui. A postura de Vini Júnior e a repercussão do caso são um alento e, oxalá, produzam mudanças. Só não dá para sermos seletivos e pontuais em nossas indignações.




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