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Divagações sobre a cidade e a condição de cidadão


Uma certeza que carreguei até aqui era ser uma citadina. Mesmo minhas incursões campesinas, praianas ou florestais como turista ou a trabalho pareciam reforçar a convicção. Estar em São Paulo era estar em casa. Aliás, a metrópole funcionava como extensão da minha casa. Sempre gostei e interagi com sua efervescência, com a possibilidade de encontros, a diversidade cultural e de lazer, a facilidade de acesso a produtos imaginados a qualquer momento. Minha máxima era: se a pessoa não aproveita o que a cidade tem de bom, porque passar pelos perrengues – trânsito, poluição, transporte e calçadas precários, falta de segurança...
São Paulo da janela do Masp.

A consciência de que estar ou não na cidade e do que fazer nela são privilégios e não escolhas estava presente, mas com condicionantes, até que a pandemia se instalou e tive um duplo impacto. Por um lado, acabou minha liberdade de decidir o que fazer com meu tempo, por outro, tive a opção de sair sem grandes esforços e com muitas vantagens à disposição.
Na primeira vez que voltei a São Paulo, pouco mais de um mês depois, em uma manhã chuvosa de sábado, ainda com as ruas desertas e tudo fechado, tive uma péssima impressão. Pela primeira vez, a feiura e a tristeza cinza da falta de horizonte me sufocou. Atravessar portões e depender da caixa fechada do elevador para chegar em casa foi penoso. Estar mascarada e com medo de tocar nas coisas só piorou a situação. Entrar no apartamento, que pareceu ainda menor do que achava, e olhar a cidade de cima através de redes foram a gota d’água para um acesso de choro (sou dramática, não tenho como evitar).
Desde então, estive por lá algumas poucas vezes para buscar coisas ou resolver algum problema. A cidade quase voltou ao ritmo normal e apenas os protocolos pregados em todos os lugares e as máscaras usadas pela maior parte das pessoas impedem que esqueçamos a situação de anormalidade que se impôs com a alcunha de “novo normal’.
Saudosa da minha antiga vida (quem não está?), não consigo planejar o que quero daqui para frente, partindo do princípio que “nada será como antes amanhã”. Principalmente, tenho severas dúvidas sobre ser ainda uma citadina, pelo menos da cidade como ela era e do que será se tudo seguir a tendência de normalidade que se avizinha. Sem uma nova utopia, receio me tornar uma eremita.
Como parte desse treinamento intensivo para ermitã, tenho evitado me afundar na profusão de lives à disposição, mas na semana passada acabei acompanhando minha filha em uma da Escola da Cidade, onde ela estuda, com o arquiteto Wellington Cançado, professor da UFMG, e o sábio (muito sábio) Ailton Krenak. Não recebi respostas prontas, mas vários insights sobre meus incômodos e algumas ideias sobre um porvir desejável, na cidade e fora dela.
Sob a provocação ‘Espaços para Respirar (em São Paulo)’, Cançado afirmou que estamos acossados em espaços privados pela impossibilidade de respirar coletivamente. E citou Lina Bo Bard: “Toda liberdade só pode ser coletiva”. Para o arquiteto, estamos confinados em nossas cavernas assistindo o extermínio afro-indígena e a exploração dos entregadores de tudo e mais um pouco. E se você acha que isso é fruto da pandemia, cuide da sua ingenuidade. Os vetores ‘antopocidas’ não chegaram com o vírus, mas o processo avançado de urbanização planetária propiciou que a covid-19 se espalhasse rapidamente a partir de poucas conexões aéreas, consequência do nosso modo epidêmico de ocupação da Terra.
Nossa urbanização está muito distante dos sonhos cosmopolitas, cujo imaginário liga ao que é bom, educado, civilizado. E mesmo que o modo de vida ‘cidadocêntrico’ seja vendido como prevalente, afinal somos 3,5 bilhões de pessoas nas cidades, 2 bilhões ainda vivem na floresta e têm o direito de continuar por lá.
O professor lembra que, no Brasil ocupado pelos europeus, a criação de espaço para respirar era limpar o terreno, criar clareiras para sair da floresta e afastar seus seres indesejáveis. Vivemos sobre ex-florestas e seguimos condenando as florestas e seus moradores indígenas e não-humanos. Nossa arrogância não permitiu que incluíssemos outros modos de viver humanos e também de outros seres (animais, árvores) como sujeitos de direito de respirar na cidade e fora dela. E pagamos o preço.
Ailton Krenak diz que a cidadania, na verdade, é privilégio de quem é da cidade, quem está fora é outra coisa. “Por isso criamos a florestania, para lembrar que existem outras vidas que não a de citadino”. O líder indígena e ambientalista defende que a cidade atrai o ser humano com a ilusão de ser consumidor de tudo que há no mundo. “Mas é um lugar seletivo, para um pequeno clube, não é para todos. Na verdade, funciona como um indutor de desejo de consumir tudo o que vem de fora”.
Com todas as promessas, as cidades tornaram-se arapucas bem sucedidas. Encomendadas pelo mercado imobiliário, são pródigas em produzir desigualdades. “Todas as grandes cidades nasceram ao longo de um rio, o qual mutilaram. E são onde as pessoas ficam encurraladas, onde mais gente está morrendo na pandemia.”
Como sair dessa arapuca? Que cidade poderíamos especular para responder aos desafios das mudanças climáticas (e suas consequências que ameaçam sua existência, como a falta de água e alimentos ou novas pandemias) e que consiga sobreviver com respeito a outros modos de vida e sem a dependência da destruição do que está além dela?
Algumas pistas começam por nos perguntarmos de onde vem o que consumimos (a carne, a madeira, os metais, a tecnologia) ou o que aconteceria se outros seres também fossem considerados como dignos de direitos. E se a cidade fosse mais autossuficiente, não apenas produtora de cultura e serviços, mas também de alimentos, energia limpa, moradia de qualidade, mais inclusiva e diversa, menos acumulativa? Vale a pena apostar na cidadania?

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