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Desci do salto


Ganhei minha primeira sandália de salto alto aos 14 anos para o casamento de uma prima. Foi amor à primeira vista. Eu e os saltos altos sempre nos complementamos. Ele, exercendo seu poder sobre mim, obrigando que me equilibrasse em seu cume, e eu fazendo dele uma muleta contra minha insegurança e falta de altura. A eficácia sempre foi duvidosa, já que a alcunha de baixinha nunca me abandonou, ao contrário, virou minha marca registrada.
De acessório para festas, rapidamente os saltos altos começaram a ganhar meu dia a dia e, já aos 17 anos, lembro de vibrar quando lançaram um tênis com salto. Me afeiçoei tanto ao modelo, que cheguei a deprimir quando a moda, tão desconfortável quando a média dos anos 1980, se evaporou como chegou.
Ter um trabalho agitado, que me obriga ir de um lugar ao outro constantemente, nunca me intimidou. Aos poucos, os sapatos de salto alto foram dominando meu guarda-roupa, cada vez maiores, cada vez mais finos. Os anabelas e as plataformas tornaram-se minhas rasteirinhas, para ocasiões informais. Chegou ao ponto de até meus havaianas serem altos – tenho amigas que se divertem com isso até hoje.
O fato de minhas panturrilhas terem ficado encurtadas e minha postura projetada pra frente tampouco me incomodou. A solução que encontrei, quando um ortopedista me alertou para o fato, foi não voltar mais lá. Quando passei a ter episódios de exaustão em grandes caminhadas, como em viagens em que era obrigada a colocar tênis ou sapatos baixos, um sinal de alerta se acendeu, mas preferi passar a levar calçados mais altos para revezar e descansar pés e pernas.
Sempre me orgulhei de dançar uma noite inteira com salto agulha e terminar a noitada pleníssima. Jamais me rendi ao chinelinho no meio da festa, cultivando um certo desprezo para as fracas que preferiam até se arriscar ficando descalças. Além de manter uma indignação genuína pela ironia do destino, que privilegia as altas até nessas ocasiões. Nos dias normais, saltitam em sapatos baixinhos e continuam maiores do que eu. Nas festas, por calçarem sapatos maiores, podem se dar ao luxo de saltos altíssimos, tipo 15 centímetros, enquanto eu, com míseros pés 34, simplesmente não andaria com nada maior do que 12.
Mas depois de 40 anos de convívio, nossa relação se desgastou. Percebi que estar nas alturas estava limitando minha vida quando passei a sentir uma vontade cada vez maior de caminhar e me locomover sem carro. Botinhas e sandálias com pouco salto definitivamente combinam mais com as calçadas íngremes, tortas e esburacadas do meu bairro, ou da minha cidade.
Meus novos preferidos.
Não foi de repente nem litigiosamente, mas comecei a achar que tênis combinavam mais com o tipo de roupa que passei a gostar de vestir e os caminhos que escolhi percorrer. Radical em mais aspectos do que gostaria, neste tenho sido leve, vou aos poucos. Substituo os saltos agulhas à medida que renovo meus sapatos. O processo é lento porque também resolvi comprar menos, só o necessário. Às vezes, sinto saudade e me elevo alguns centímetros sem culpa. Mas estou ficando seletiva. O futuro desse relacionamento só o tempo dirá.

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